(DN) Encontro Brasil- Coreia abre espaço para G-20
VoltarPara a liderança da comitiva, o encontro realizado no Ceará abre um novo capítulo nas relações bilaterais
A expectativa de ampliação das relações comerciais trazida pelo V Fórum Brasil-Coreia realizado ontem e hoje em Fortaleza ganha dimensão maior com a realização da Cúpula do G-20 em novembro, na capital sul-coreana, Seul. O presidente da Frente Parlamentar Brasil-Coreia e presidente da delegação coreana, Hye Young Won, avalia que o evento no Ceará ajuda a trazer resultados efetivos que devem ser formalizados entre os presidentes dos dois países durante o G-20.
"A Coreia do Sul começou o processo de industrialização tarde e conseguiu rápidos resultados, mas é extremamente pobre em recursos naturais", explica Won. Isso, entretanto, fez com que o País tivesse que compensar essa deficiência com o forte investimento em educação e em recursos humanos.
O que Won defende é que a experiência da Coreia do Sul pode ser interessante para o Brasil, abundante em recursos naturais, e que o fortalecimento dessa a parceria é vantajoso para os dois lados. O embaixador da Coreia do Sul no Brasil, Kyonglim Choi, cita entre as áreas que mais interessam ao País e que podem render "relações mais intensas " são bioenergia, indústria naval e automobilística, tecnologia da informação e telecomunicação.
A presença de 23 coreanos, entre membros do governo e empresários, no evento realizado na Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec) dá a dimensão do forte interesse sul-coreano em estreitar laços com o Brasil. Segundo Won, a quinta edição do encontro marcará o início de um novo capítulo nas relações bilaterais. Depois de quatro edições de muito diálogo, ele afirma que agora um relatório final com o resultado do encontro será entregue aos presidentes dos dois países por ocasião da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à capital coreana.
As exportações brasileiras para a Coreia do Sul cresceram 9,77% de janeiro a julho deste ano em relação ao sete primeiros meses de 2009.
A venda de produtos do Ceará para a Coreia do Sul subiu 72,1% no mesmo período, mas representa apenas 0,1% de tudo o que o Estado exporta.
Cooperação mútua
Won ressalta que as visões e propostas estabelecidas no Fórum devem envolver cooperação mútua em diversas áreas, principalmente no âmbito da ciência e tecnologia, alianças estratégicas entre governos e sociedade civil e o intercâmbio cultural entre os dois países.
Ele considera que as relações entre Brasil e Coreia estão hoje em outro nível, bem superior ao que ocorria em 1995, quando o presidente Lula visitou pela primeira vez o seu país. Porém, os laços precisam ser estreitados para a prosperidade dos dois países. Os sul-coreanos querem aprofundar o potencial existente entre Brasil e Coreia, saindo da perspectiva global para explorar também as potencialidades regionais.
O presidente da comitiva do Itamaraty, embaixador José Jerônimo Moscardo, ressaltou a importância que a Coreia do Sul tem para o Brasil, a tirar pela composição da delegação. "Devo dizer que nunca vi uma delegação do Itamaraty tão nutrida por uma relação internacional. Estão aqui os papas do Itamaraty, enviados pessoalmente pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim", frisou.
Moscardo preside a Fundação Alexandre de Gusmão (Fenag), instituição vinculada ao Ministério das Relações Exteriores encarregada em promover a pesquisa e a cooperação na área das relações internacionais.
Os motivos do interesse do governo brasileiro são explicados por Moscardo. "A Coreia representa um paradigma admirável como potência cultural, que hoje desponta como uma das principais potências mundiais". O embaixador lembrou que a Coreia fez sua revolução centrada na educação, com desenvolvimento consistente na área filosófica, baseada no respeito ao espírito cívico e às relações humanas. "O governo brasileiro tem uma curiosidade extraordinária em descobrir qual o segredo da Coreia", cuja força, segundo ele, se evidencia, entre outras coisas, pela invasão dos produtos coreanos no mercado mundial. O embaixador enfatizou que o governo do Brasil está definitivamente disposto a apoiar projetos das mais diversas áreas que ampliem as relações bilaterais com a Coreia. "Temos interesse não só na área diplomática, mas também acadêmica", afirma.
Siderúrgica
O presidente da Fiec e anfitrião do evento, Roberto Macêdo, disse ser "fã" da Coreia e lembrou que o país "invadiu o mundo" com seus produtos nos últimos anos. Segundo Macêdo, o fato de os dois países estarem em lados opostos do planeta reforça o potencial que ambos têm de encontrar soluções bilaterais. Ele citou como exemplo de sucesso a parceria da coreana Dongkuk com a brasileira Vale do Rio Doce para instalação da CSP. "Com a siderúrgica estamos passando para outra fase da industrialização do Estado do Ceará".
ENERGIAS RENOVÁVEIS
Parceria é subaproveitada
No setor comercial, o foco do Brasil será mudar a pauta de exportação, que hoje é composta de produtos primários
Brasil e Coreia têm subaproveitado as oportunidades entre os dois países, na avaliação do ministro chefe da Divisão da Ásia e Oceania II do Ministério das Relações Exteriores, Francisco Mauro Brasil. "No campo das energias renováveis o Brasil tem grande competitividade, enquanto a Coreia tem carência nessa área", exemplificou.
Para ele, o grande milagre sul-coreano na educação deve ser entendido e acompanhado pelo Brasil. O ministro explica que o País pretende intensificar a aproximação dos centros de investigação científica dos dois países. No setor comercial, o foco será mudar a pauta de exportação entre os dois mercados, que hoje é composta de produtos primários, passando a investir em exportações de maior valor agregado.
Siderúrgica
"A siderúrgica causará impacto de 42% no PIB industrial do Estado", ressalta o presidente do Conselho Estadual de Desenvolvimento Econômico (Cede), Ivan Bezerra. Ele também aposta na possibilidade de parceria entre Ceará e Coreia na indústria automobilística, na cooperação acadêmica, no turismo e das energias renováveis.
Fique por dentro
O que é o G-20
O G-20 foi criado em 1999 para ser um fórum de debate entre países desenvolvidos e emergentes, inclusive Coreia do Sul e Brasil. Além deles, o grupo que se propôs a buscar soluções para contornar crises financeiras reúne ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais de países da União Europeia, Estados Unidos, Argentina, Austrália, Canadá, China, Índia, Indonésia, Japão, México, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul, Turquia e Estados Unidos.
ENTREVISTA
Embaixador Jeronimo Moscardo*
"O grande trunfo do Lula foi conciliar empresário e trabalhador. Conciliou a Av. Paulista com os sindicatos"
Como avalia o papel do Brasil nas relações internacionais desde 2003, quando teve início o governo Lula?
O Brasil é continental. Não é um País normal. O Brasil é um País baleia. Então o grande erro que nós temos é quando o Brasil pensa pequeno. Quem tem uma alma pequena não compreende o Brasil. Acho que vivemos no Brasil atualmente um ciclo extraordinário do qual nós não nos damos conta.
Mas qual foi a marca deixada pelo governo Lula nisso?
O grande problema no Brasil era a exclusão social. Havia muito pobre no Brasil. Havia muita gente excluída do mercado. Havia muita gente esquecida e você elege um excluído com poucas letras e um nordestino discriminado para fazer a inclusão. Esse homem presidiu a reincorporação de quantas pessoas na sociedade brasileira? Houve ainda aumento do salário mínimo. Ao mesmo tempo, o Lula fez algo extraordinário porque todo o mundo pensava que o Lula ia ser radical que ele ia hostilizar os ricos. E o que é que ele fez? Ele fez uma conciliação. E hoje você vê os índices de aprovação do presidente Lula ao final do governo. Não há no mundo hoje algo parecido.
Como vê a atuação internacional do Brasil no governo Lula e no governo Fernando Henrique?
Você veja o que é o Brasil. O Fernando Henrique Cardoso tinha formação das mais sofisticadas e não fez o sucesso no exterior que fez o Lula. Ele caminha para um possível Prêmio Nobel da Paz. Lula já ganhou quase todos os prêmios que o Mandela ganhou. Mas por que? Porque o Lula gosta do Brasil. O Lula não tem problema de ser brasileiro. O problema de um homem sofisticado demais é querer falar francês como os franceses, conhecer vinho francês como os franceses. O Lula gosta de cachaça, da gente do Brasil. Então ele faz um sucesso danado. É essa autenticidade de gostar de ser brasileiro e de não querer ser outro que dá a ele uma capacidade muito grande de seduzir. Ele governa com alegria.
Como o Sr. avalia esse governo que está sendo encerrado?
A experiência de Lula como líder sindical fez com que ele se tornasse um grande negociador internacional, porque ele sabe morder e sabe assoprar. Então ele diz o que quer sem que a pessoa sofra. Há essa posição de acudir em certas situações. Agora mesmo, recentemente, houve esse confronto entre a Colômbia e a Venezuela e ele intercedeu. Foi lá e pediu para que tudo se acalmasse. No Brasil, internamente, o grande trunfo do Lula foi conciliar o empresário com o trabalhador. Ele conciliou a Avenida Paulista com os sindicatos. Então isso é o vetor do capital e do trabalho. O Lula fez esse pacto de combate à inflação e isso mudou muita coisa. Isso deu base de prosperidade ao Brasil, deu tranquilidade. Seguindo as receitas de boa governança, hoje o Brasil é credor do Fundo Monetário Internacional (FMI). Hoje há confiança na moeda e no Governo. Você vê a classe C com outras perspectiva. Hoje há carro sendo vendido em 60 meses e antes você não conseguia comprar nem aquelas carrocinhas de pipoca. Isso não existe em lugar nenhum do mundo. Nós vivemos um momento de muito otimismo.
Que alicerces há para que o Brasil apresente mais crescimento?
O Brasil é maior por dentro do que por fora. É gigantesco. Só existem cinco países do mundo com o nível do Brasil. É muito interessante quando se vê políticos brasileiros fazendo comparações como: "Ah, porque o Chile...". Mas o que é o Chile? É a avenida Niemeyer da América Latina. É uma tripazinha de 200 km. Agora, o Brasil, você tem de ter respeito pela dimensão desse País. A França você percorre até de bicicleta. Vai percorrer o Brasil de bicicleta. Você tem de ter respeito pela nossa riqueza, que é de tamanha abundância. O Brasil tem um potencial grande e esse potencial está se tornando cada vez mais visível. No passado, ninguém acreditava no Brasil. Ninguém acreditava na indústria brasileira. Hoje, você vê o país com equilíbrio financeiro e inclusão social crescente. Isso tudo é algo extraordinário. Vocês vivem uma geração em linha ascendente.
Que resultados são esperados para o Fórum Brasil-Coreia?
Esse encontro com a Coreia foi uma conspiração da qual participaram vários cearenses. Esse grupo pensou em trazer essa reunião para o Ceará porque a Coreia não é um País qualquer. A Coreia é o País mais exitoso do mundo num projeto de desenvolvimento. É uma nação do tamanho de Pernambuco que nos anos 60 era muito pobre e que fez um programa de desenvolvimento fundado na educação e num plano estratégico de Ciência e Tecnologia. Transformou-se num dos grandes países do mundo, com mais de US$ 1 trilhão de Produto Nacional Bruto. Existe um pulo do gato nessa história e queremos saber como eles fizeram essa revolução na educação, no acesso à tecnologia e nesse processo de desenvolvimento.
*Embaixador e presidente da Fundação Alexandre de Gusmão
ÂNGELA CAVALCANTE/CRISTIANE BONFIM
REPÓRTERES
jornal DIÁRIO DO NORDESTE
Dégagé





